Entonces vino la Palabra; vino aquí de los Dominadores, de los Poderosos del Cielo, en las tinieblas, en la noche: fue dicha por los Dominadores, los Poderosos del Cielo; hablaron: entonces celebraron consejo, entonces pensaron, se comprendieron, unieron sus palabras, sus sabidurías. Entonces se mostraron, meditaron, en el momento del alba; decidieron construir al hombre, mientras celebraban consejo sobre la producción, la existencia, de los árboles, de los bejucos, la producción de la vida, de la existencia, en las tinieblas, en la noche, por los Espíritus del Cielo llamados Maestros Gigantes.
Popol-Vuh
O império inca, sociedade que se desenvolveu nas encostas dos Andes nas terras hoje ocupadas pelo Peru, Colômbia, Equador, Bolívia e norte do Chile e da Argentina. O poder tanto político como religioso se concentrava na pessoa do imperador Sapa Inca, considerado como filho do deus-Sol Inti e como guardião dos bens do Estado, em especial da terra que se dividia em três partes: a terra do deus-Sol, reservada aos sacerdotes; a terra do Inca, reservada à família real; e a terra para a população distribuída de forma igualitária a cada família para garantir o seu sustento. Possuiam uma hierarquia social muito rígida e com leis que controlava rigorosamente a vida da população e determinavam o tempo de semear, o tempo de colher e até os dias para ir ao mercado e de se divertir. A posição de imperador era hereditária e cabia ao filho eleito como mais apto para ocupá-la e que, para perpetuar sua linhagem divina, após ser escolhido devia se casar com sua irmã que recebia o título de Qoya.
A diversidade cultural era uma particularidade do império inca, formado pela anexação política e econômia de muitos povos diferentes cada qual com seu idioma, que podiam manter sua tradição religiosa e seus costumes desde que pagassem tributos e adotassem
oficialmente o idioma quéchua e a veneração pelo deus Inti. Embora tivessem um exército muito bem treinado e organizado, a conquista de novas terras para o império era feita, sempre que possível, sem o uso de violência. Ao planejar anexar uma nova região, o imperador analisava as informações trazidas por espiões sobre as condições econômicas, militares e políticas da mesma e, em seguida, enviava embaixadores para convencer os governantes a se unirem ao império de forma pacífica, com ricos presentes e com a garantia de que manteriam suas condições de nobreza e de governantes. Uma vez firmado o acordo era estabelecida a tributação e os serviçoss que deveriam ser prestados. A nova região era prontamente ligada às outras regiões do império por um eficiente serviço postal formado pelos chasquis, mensageiros que veiculavam mensagens e notícias entre as cidades num circuito de 125 milhas por dia. Algumas vezes era promovida a mudança de populações conquistadas para que se integrassem no sistema de estradas e pontes que percorria todo o território inca e que foi idealizado para facilitar o transporte de bens e víveres durante a guerra e para promover a unidade do império por meio do intercambio cultural e da troca de informações entre suas cidades.
O bom relacionamento entre a nobreza imperial e os líderes das regiões conquistadas era fortalecido por meio de alianças matrimoniais e pela igualdade de direitos estabelecidos pela forma de governo desenvolvida pelos incas que garantia a todos o acesso à terra e um eficientíssimo sistema agrícola, base de sua economia, que exigia o cultivo de cada pedaço de terra. Cultivavam batatas, milho, amendoim, arroz, mandioca, abóbora, cacau, tomate, pimenta, pimentões e ervas para temperos. Nas encostas mais íngremes eram construídos terraços em forma de degraus construídos com paredes de pedras e patamares de terra vegetal em que eram plantadas as espécies apropriadas a cada altitude: nas partes mais altas a batata, a coca e outros produtos resistentes ao frio;
nas partes intermediárias, o feijão e o milho; e na parte baixa, a pimenta e as frutas e assim, em algumas épocas do ano, a montanha parecia uma grande escada verde. Fertilizavam a terra com adubo de aves marinhas e contavam com um sistema de irrigação formado por canais e aquedutos tão eficiente que surpreendeu os europeus e cuja técnica ainda não foi superada e é utilizada até a atualidade. Dois terços da produção eram estocados pelo governo para serem distribuídos em períodos de escassez e graças à eficiência do sistema adotado era possível alimentar uma população de mais de 20 milhões de pessoas de forma satisfatória. Sua alimentação era ainda composta da carne de alguns animais e de frutas como framboesa, mamão, fruta de conde, abacate, caju, jambo, etc.
Domesticavam alguns animais como lhamas, alpacas, vicunhas, cabras perus, galinhas e coelhos e cultuavam a águia, o jaguar e a serpente.
A construção de estradas, de pontes, de túneis, de palácios, de templos e de fortalezas de admirável arquitetura atesta o notável desenvolvimento dos incas, considerando-se mais uma vez o conceito europeu de desenvolvimento. Desenvolveram um eficiente sistema de correios que permitia uma continua comunicação entre a capital e as mais longínquas províncias.
Além do deus-Sol Inti, os incas adoravam diversos deuses, geralmente associados a outros elementos da natureza como a Lua, a terra, a chuva e o raio. Como os astecas, respeitavam os deuses dos povos que dominavam, mas impunham o culto a seus deuses principais. Suas divindades recebiam oferendas que incluíam sacrifícios humanos. A relação com os deuses, à semelhança das relações humanas, baseava-se na troca de favores e esperava-se dos deuses que retribuíssem as oferendas em forma de proteção, de chuva ou de boas colheitas.
As artes produzidas pelos incas eram relacionadas ao cotidiano, aos rituais religiosos e à ciência. Entre elas destaca-se o trabalho com a cerâmica e a observação dos diferentes estilos, formas, cores, desenhos e técnicas utilizados em sua produção que possibilita o conhecimento das diferentes fases do desenvolvimento do império incaico e a contribuição das diversas culturas que fizeram parte de sua formação. Trabalhavam o barro, a pedra, o cobre, a prata e o ouro que moldavam de forma semelhante aos astecas, pelo método da cera perdida. Também dominavam técnicas avançadas de artesanato têxtil e como, graças ao cultivo do algodão e à criação de lhamas e alpacas, dispunham de farta matéria prima, produziam ricos e variados tecidos e mantas que destacavam pelas cores vivas.
Na medicina conseguiram desenvolver uma técnica cirúrgica conhecida como trepanação que até hoje é utilizado para aliviar a pressão intracraniana causada por hemorragias ou acúmulo de fluídos devidos a ferimentos severos. Achados arqueológicos demonstram o desenvolvimento e aperfeiçoamento desses procedimentos cirúrgicos uma vez que os crânios com datação mais antiga não apresentam sinais de consolidação óssea, indicativo da não sobrevivência do paciente após a cirurgia enquanto achados de datação mais recente apresentam crescimento ósseo em volta da abertura sugerindo elevadas taxas de sobrevida dos pacientes. Também demonstraram elevado grau de conhecimento farmacológico com a utilização de inúmeras plantas no tratamento das enfermidades como o quinino que era utilizado com eficácia no tratamento da malária e a utilização das folhas de coca como analgésico e como energético.
A educação era um fator muito importante na sociedade inca. Os filhos dos hatunrunas, homens comuns recebiam educação familiar transmitida de geração a geração e caso os pais falhassem em sua missão e os filhos mostrassem má conduta em seus atos civis, os
pais eram severamente punidos às vezes até mesmo com a morte. Os filhos dos nobres recebiam educação formal nos Yachayhuasis ou Casas do Saber, fundados em Cusco pelo Inca Roca, sucessor de Cápac Yupanqui, onde os amautas, sábios ou mestres, ensinavam aos filhos da nobreza inca normas morais e religiosas, davam instruções sobre a política e as formas de governo do império. E também história, ciências matemáticas, conhecimentos sobre a terra e ainda sobre a cosmovisão andina. Tinham um complexo sistema de registro numérico decimal chamado quipu em que as informações eram registradas em cordões de tamanhos diferentes e com diversos nós presos a um cordão principal. As informações podiam ser identificadas pela cor do cordão, pela quantidade e pela posição dos nós. Segundo Josef (1989: 23) a par de registros sobre a guerra e sobre a história, os amautas também conservaram nos quipus a lírica, as farsas, as fábulas realistas e o taqui ou dança coletiva. Rivara (1991: 5) destaca que esse sistema de registro e de transmissão do conhecimento não pôde ser
apreendido cabalmente pelos conquistadores. A música e a dança dos incas tinham caráter ritual e estavam presentes nas grandes
festas cerimoniais, nas festas agrícolas, nas cerimônias guerreiras e eram utilizadas também como expressão do sentimento amoroso. Os instrumentos musicais eram de sopro (flautas de diversos tamanhos, formatos e matérias: quena, píncullo e antara ou zampona) pututo, quepa, manchaypuito e intrumentos de percursão (tinya, tambor pequeno e huáncar, tambor grande), e ainda instrumentos idiófonos como os cascabeles, sacchas, e sonajas fabricados com ossos, metais, pedras, canas, argila, caracóis marinhos, couro de animais, pele do ventre do inimigo vencido etc.
Também na literatura os incas se mostraram produtivos e criaram numerosas obras líricas, épicas e dramáticas com temas referentes a funerais, guerras, núpcias e outros eventos quase sempre ligados a rituais rotineiros nessa cultura. As narrativas eram
transmitidas oralmente uma vez que não chegaram a elaborar um sistema de escrita e, graças ao trabalho de compilação de alguns cronistas da colonização, é-nos possível conhecer alguns desses textos. Entre os textos cconsiderados como de origem prá- hispânica, destaca-se Apu Ollantay, um drama de autoria anônima que, segundo Josef (1989: 32) permite entrever o espírito e os recursos cênicos dos indígenas. O texto foi conservado oralmente até ser adaptado e escrito originalmente no idioma quéchua e posteriormente em espanhol e em outras línguas. A obra é escrita em versos com liberdade métrica em que predominam octassílabos alternados com endecassílabos; liberdade de rima com predominância de rimas imperfeitas e de versos brancos; e dividida em três atos ou quinze cenas.
Os personagens principais são: Ollanta, general rebelde enamorado pela filha do Inca Pachacútec, Cusi Ccoyllur; Piqui Chaqui, amigo de Ollanta; Huillac Uma, sacerdote; Rumi Ñahui, general da corte imperial; Orcco Huaranca, chefe dos rebeldes; Ima Súmac, filha de Ollanta e de Cusi Ccoyllur; Pitu Salla, amiga de Ima Súmac; e Túpac Inca Yupanqui, herdeiro de Pachacútec.
A saga do general plebeu que se apaixona perdidamente pela filha do soberano é narrada numa linguagem poética rica em imagens e plena de musicalidade, caracterizada pela mistura harmoniosa do arrebatamento lírico com a serenidade da reflexão filosófica, da eloquência cerimoniosa comum aos povos americanos com a concisão dos provérbios e da espansividade metafórica do jovem apaixonado com a linguagem circunspecta dos nobres. A pretensão do jovem plebeu de se unir à jovem pertencente à dinastia do Sol é considerada como uma profanação e Ollanta, embora tenha sua vida poupada por ser um herói estimado pelo povo e pela corte, é expulso da cidade e parte para o exílio com o amigo, ameçando voltar com destruição e vingança. Enquanto Ollanta se une aos revoltosos chefiados pelo general Orcco Huaranca, se
declara como novo soberano e organiza suas tropas para avançar contra Cuzco, sua amada padece prisioneira em uma horrível caverna e sua filha Ima Súmac, acompanhada pela amiga Pitu Salla, vaga desconsolada pelas galerias e jardins do palácio sem saber que os lamentos que escuta e que lhe causam tanta angústia sejam de sua mãe eque lhe dizem estar morta. O general Rumi Ñahui, é enviado pelo soberano inca com a missão de aniquilar os revoltosos, mas seu exército é vencido numa emboscada Após ser severamente repreendido por Túpac Yupanqui, sucessor de Pachacútec, o general se disfarça com andrajos e falsas feridas, e consegue penetrar no castelo de Ollanta e abrir as portas para suas tropas que conseguem aprisionar Ollantay. Entretanto, Ima Súmac descobre a verdade sobre sua mãe e graças à sua intercessão, Túpac-Yupanqui, liberta a irmã cativa, perdoa a rebelião de Ollanta, o nomeia como curaca de Cusco e faz com que ele se possa viver feliz ao lado da esposa e da filha. Reproduzo aqui, apenas o canto de amor que Ollanta dedica à sua amada:
OLLANTA (Canta.)
¡Ay, Ccoyllur, brilhante estrella, De la zarífica altura!
¿Corresponde a tu hermosura Esta mi triste canción?
Que huyan tus penas e angustias Para que así estes contenta Y libre de la tormenta Que el pesar hacer sentir. ¡Si te He perdido, el juicio Perderé com amargura! ¡Si te doy la sepultura
También deberé morir! (OLLANTAY, 1998: 28/29).